A média anual de mortes associadas ao calor no mundo registrou um aumento de 35,8% no período de 2016 a 2023 em comparação com a década anterior, de 2006 a 2015, segundo dados do relatório Lancet Countdown 2026. Em resposta aos indicadores, a Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatizou os dados em uma quarta-feira (28) e cobrou uma ação firme contra a crise climática. Nos mapeamentos apresentados pelo levantamento, o Brasil figura entre as nações que passaram a enfrentar maior frequência de meses extremamente secos e um volume superior de horas sob risco térmico.
Em termos absolutos, as estimativas apontam que as vitimações fatais ligadas ao estresse térmico saltaram de uma média de 398,4 mil para 540,8 mil ao ano no comparativo entre os dois intervalos analisados. Apenas no ano de 2023, foram projetados 710 mil óbitos dessa natureza, dos quais 71,5% resultaram das alterações no clima provocadas diretamente pela atividade humana. Os pesquisadores esclarecem que essa alta percentual de 35,8% reflete a dinâmica global e não representa um índice isolado do território brasileiro.
Ao examinar a prática de atividades físicas ao ar livre que exigem esforço moderado, o documento demonstra que o Brasil apresentou uma elevação nas horas de risco térmico. A medição comparou os períodos de 2006–2015 e 2016–2025, levando em conta tanto a dimensão territorial quanto a densidade populacional dos países. O cenário nacional corrobora o panorama de agravamento das condições climáticas adversas em diversas regiões.
Os registros consolidados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) para o ano de 2025 exemplificam a dimensão dessa crise no país, que vivenciou sete ondas de calor ao longo daquele período. A cidade de São Paulo, por exemplo, atingiu a marca de 37,2°C em dezembro, o registro mais elevado para o mês nos últimos 64 anos. O órgão de monitoramento correlacionou as altas temperaturas a reflexos diretos na saúde pública e ao aumento da pressão sobre a infraestrutura urbana.
Na análise da escassez hídrica baseada no armazenamento de água, o mapa de meses extremamente secos situa o Brasil na faixa de crescimento do indicador nas últimas décadas, com destaque para a bacia amazônica entre as localidades mais afetadas. Em 2025, o Cemaden contabilizou até 503 municípios brasileiros em situação de seca severa ou extrema, registrando déficits hídricos que se prolongaram por até dez meses contínuos. O Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, encerrou aquele ano com apenas 20,2% do seu volume útil, agravado pelo regime de chuvas irregular e pela elevação na captação de água.
Outro fator crítico apontado no relatório trata da perda de cobertura arbórea no Brasil, que sofreu uma expansão de 56,5% entre 2023 e 2024, impulsionada quase na totalidade por queimadas e incêndios florestais. Na esfera da saúde humana, os danos causados pela exposição prolongada às altas temperaturas extrapolam o mero desconforto. O Guia de Mudanças Climáticas para Profissionais da Saúde, elaborado pelo Ministério da Saúde, estabelece uma associação direta entre a elevação térmica e o crescimento nas internações hospitalares por patologias renais no país, além de salientar os perigos de desidratação e lesões renais que agravam enfermidades preexistentes.
Para mitigar os danos, o Ministério da Saúde dispõe de um painel de excesso de calor que monitora condições térmicas, traz previsões meteorológicas de curto prazo e cruza dados socioambientais das cidades, visando orientar estratégias municipais de vigilância e resposta operacional. Paralelamente, a OMS e os autores da pesquisa defendem a redução acelerada das emissões de gases estufa, ampliação do financiamento focado em adaptação e o fortalecimento das estruturas de saúde diante dos eventos extremos. A publicação ressalta que o uso de energia limpa e de sistemas de alerta precoce já previne mortes, ao passo que a comunidade científica cobra o reconhecimento formal da crise climática como uma emergência de saúde global.

