Trump encerra financiamento público de anúncios televisivos antes das eleições de meio de mandato

6 min de leitura
Créditos/Reprodução Internet

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, declarou nesta terça‑feira que os comerciais de televisão exibidos desde setembro, que exaltam as realizações de seu governo, deixarão de ser financiados com recursos públicos. Em postagem na rede Truth Social, o mandatário escreveu: “A esquerda radical está indignada porque estou pagando comerciais que considero uma propaganda positiva para os nossos grandiosos Estados Unidos com recursos públicos”.

- Publicidade -

O mandatário afirmou ainda que, embora o uso de recursos governamentais para esse tipo de anúncio seja “basicamente o padrão”, a partir de agora os custos serão cobertos por doações de apoiadores. Os anúncios, que começaram a ser veiculados em programas como Saturday Night Live e transmissões de futebol americano, traziam a inscrição “Financiado pelo governo dos Estados Unidos” e mostravam, entre outras imagens, a prisão de Nicolás Maduro por tropas americanas, além de fotos e vídeos de Trump acompanhados de declarações de combate contra “belicistas” e a “classe política doente”.

A prática gerou forte controvérsia, pois a legislação norte‑americana proíbe propaganda eleitoral custeada pelos contribuintes. Organizações não governamentais e adversários políticos apontaram que os comerciais foram exibidos pouco antes das eleições de meio de mandato – as chamadas midterms – nas quais se decidirá o futuro de todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e de 35 das 100 cadeiras do Senado. Segundo a emissora CBS, o Departamento de Segurança Interna teria desembolsado 20 milhões de dólares a uma agência para a campanha nacional de mídia.

A ONG Public Citizen, que defende direitos dos consumidores, ressaltou que o “padrão” mencionado por Trump se aplica apenas a anúncios de serviço público, como informações sobre programas sociais, e que os vídeos exibidos não se enquadram nessa categoria. “A lei proíbe explicitamente o uso de recursos públicos para propaganda do governo, autopromoção ou publicidade política em favor de um partido”, afirmou a organização, acrescentando que “os comerciais de Trump são exatamente dessa natureza”.

Especialistas também se manifestaram. Patrick Malone, professor de políticas públicas na American University, considerou a exibição dos vídeos neste momento particularmente problemática. “Não se deve usar dinheiro público para coisas relacionadas a campanhas eleitorais. Estritamente, Trump não está fazendo campanha, ele não diz ‘vote em mim!'”, observou Malone. “Mas o complicador aqui é o momento em que isso ocorre, a poucas semanas antes das eleições de meio de mandato, isso é realmente um grande problema.”

As eleições de 3 de novembro decidirão a renovação de todos os assentos da Câmara dos Representantes e cerca de um terço das cadeiras do Senado, além de disputas por governadores em alguns estados. Atualmente, os republicanos controlam as duas casas do Congresso, com 53 dos 100 assentos no Senado e 219 dos 435 na Câmara, o que facilita a aprovação da agenda de Trump. Contudo, uma pesquisa eleitoral divulgada em 5 de outubro pelo instituto Ipsos, em parceria com a Reuters, indicou que o cenário pode mudar. Entre entrevistados com mais de 50 anos, os republicanos alcançavam 44 % das intenções de voto, apenas dois pontos à frente dos democratas; entre os menores de 50, os democratas lideravam com vantagem de 18 pontos percentuais. A aprovação de Trump também se mostra baixa, com apenas 32 % dos entrevistados avaliando seu desempenho como bom.

Diante desse panorama, alguns candidatos republicanos têm evitado se associar ao presidente. Um estrategista do partido, que preferiu permanecer anônimo, disse ao portal Politico que, se Trump fosse a um estado para fazer campanha, “meus candidatos pegariam covid” apenas para não ter de comparecer. A própria convenção do Partido Republicano, organizada por Trump em setembro – evento normalmente reservado a eleições presidenciais – registrou ausências de figuras como a senadora Susan Collins, do Maine, e o senador Dan Sullivan, do Alasca, bem como de candidatos à Câmara em estados competitivos como Arizona, Iowa e Michigan.

Durante a convenção, Trump anunciou medidas de campanha inusitadas. Para estimular a participação eleitoral, sugeriu que os eleitores fizessem de conta que ele estivesse na cédula de votação e, ainda, prometeu que, caso os republicanos conquistassem a maioria em ambas as casas do Congresso, cada eleitor apto a votar receberia 5 mil dólares (cerca de R$ 24,9 mil). A proposta, que custaria mais de um trilhão de dólares, dificilmente será viável. “Ele não dispõe de dinheiro para fazer isso por conta própria. A medida teria de ser autorizada e implementada pelo Congresso”, analisou Malone, lembrando promessas anteriores que não se concretizaram, como a de que o México pagaria pelo muro na fronteira.

Compartilhar este artigo