Ex‑banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde março, teria ordenado, em janeiro, um ataque hacker contra suas contas do iCloud e a do cunhado Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro do Banco Master. A operação teria sido encomendada enquanto Vorcaro cumpria prisão domiciliar em São Paulo, período em que a Polícia Federal já mantinha seu celular sob controle há cerca de dois meses e havia bloqueado o acesso externo aos dados.
A tarefa foi repassada ao publicitário e lobista Thiago Miranda, que acionou o especialista em segurança digital Thiago Santos. Segundo a reportagem da revista Piauí assinada por Breno Pires, Santos conseguiu acessar a conta de Vorcaro, mas a tentativa foi detectada pela PF, que conteve a ação e preservou as informações. O objetivo seria apagar fotos, mensagens e arquivos armazenados no iCloud antes que os investigadores coletassem os dados dos celulares apreendidos.
A conta de Fabiano Zettel também teria sido alvo. Zettel foi preso em 14 de janeiro, ao tentar embarcar para Dubai no Aeroporto de Guarulhos, e liberado no mesmo dia, mas teve o celular apreendido pela PF. A tentativa de destruição de provas pode configurar obstrução de justiça, embora a responsabilização criminal dependa da apuração das autoridades.
Quem é Thiago Miranda
A revista indica que Miranda recebeu a ordem de Vorcaro e procurou Santos para executar a invasão digital. Miranda também é descrito como interlocutor do ex‑banqueiro com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL‑RJ), em tratativas financeiras relacionadas ao filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro. Em julho de 2026, a PF realizou busca e apreensão contra Miranda sob suspeita de obter informações sigilosas e coagir adversários de Vorcaro; seu passaporte foi apreendido por ordem do ministro André Mendonça (STF). O conteúdo do celular de Vorcaro revela contatos frequentes de Miranda com o deputado Mario Frias (PL‑SP) e com Eduardo Bolsonaro ao longo de 2025.
Dossiês e outras solicitações
Além da invasão ao iCloud, Vorcaro teria pedido a Miranda a elaboração de um relatório sobre o agente da PF Wilker Goulart, que investigava o caso Master, e um dossiê sobre o diretor do Banco Central Renato Dias de Brito Gomes, responsável pela área de Organização do Sistema Financeiro e Resolução. Um grupo ligado a Miranda teria preparado o dossiê sobre Goulart dias antes de Vorcaro mencioná‑lo em audiência no STF, em 30 de dezembro de 2025. Santos teria produzido um documento de 11 páginas sobre Gomes e a ofensiva incluiu montagens e publicações nas redes sociais que criticavam sua atuação na liquidação do Banco Master, concluída em novembro de 2025.
Tentativa de remoção de notícias
Miranda teria novamente acionado Santos para tentar retirar da internet notícias publicadas por veículos de Miami sobre Vorcaro e sua então noiva, a influenciadora Martha Graeff. A operação teria contado com escritórios de advocacia digital nos Estados Unidos para solicitar a remoção de conteúdos à Meta (Instagram e Facebook). O monitoramento digital continuou até poucos dias antes da segunda prisão de Vorcaro, em março de 2026, e também acompanhou familiares do ex‑banqueiro investigados pela PF.
Reações dos citados
Thiago Miranda não comentou os fatos; seu advogado Rafael Martins alegou que os atos são legais e estão sendo apurados nas operações Compliance Zero e Projeto DV. A defesa de Vorcaro não respondeu aos questionamentos da revista. Thiago Santos negou qualquer irregularidade e afirmou ter comparecido espontaneamente à PF para prestar esclarecimentos.
A reportagem conclui que a tentativa de apagar evidências ainda está sob investigação, podendo configurar crime de obstrução de justiça, dependendo da análise das autoridades competentes.



