O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, afirmou que a Argentina precisa interromper imediatamente as agressões dirigidas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a relação bilateral retorne à normalidade. A declaração foi dada em entrevista ao jornal argentino Clarín, concedida em Cali, na Colômbia, onde o chanceler representou o governo brasileiro na posse do presidente Abelardo de la Espriella.
Atualmente, a representação diplomática entre os dois países está a cargo de encarregados de negócios, nível hierárquico inferior ao de embaixador. Segundo Vieira, o rebaixamento decorre de ataques reiterados do presidente argentino, Javier Milei, a pessoas e a instituições brasileiras, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF).
O chanceler brasileiro classificou como “algo assombroso” o discurso proferido por Milei na convenção do Partido Liberal e manifestou o desejo de ver os embaixadores retornarem aos postos assim que a situação for revertida. Vieira também negou a acusação de que o Brasil teria participado ou financiado uma campanha internacional contra o governo argentino, classificando a alegação como “totalmente falsa”. Ele esclareceu que a visita do ex-ministro argentino Sergio Massa ao Brasil ocorreu estritamente por assuntos de interesse econômico mútuo.
Sobre as críticas de integrantes do governo argentino que qualificam Lula como “comunista”, Vieira considerou a declaração “surpreendente” e ressaltou que o presidente brasileiro jamais negou ou tentou alterar o caráter capitalista da economia do país. Apesar do atrito diplomático, o chanceler reafirmou a relevância comercial e estratégica da Argentina para o Brasil.
Relações com os Estados Unidos
Na mesma entrevista, o chanceler abordou a deterioração das relações com os Estados Unidos após dois encontros anteriores entre Lula e Donald Trump. Segundo Vieira, o governo americano violou a Convenção de Viena ao enviar ao Senado dos EUA o nome de um candidato a embaixador no Brasil e realizar uma consulta pública 30 dias depois, sem trâmite prévio adequado.
De acordo com Vieira, o gesto buscou pressionar o governo brasileiro em um momento acompanhado por comentários de autoridades americanas sobre o sistema eleitoral do país e pedidos de visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso.
Questionado sobre a pressão dos Estados Unidos em relação à presença da China na América Latina, Vieira afirmou que o Brasil mantém relações equilibradas com diversos parceiros globais e declarou que “a política de pressão e sanções não é útil; o que funciona é a negociação.” O ministro também refutou teses de que o Brasil estaria isolado regionalmente diante de novas gestões de direita na América Latina.



