O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva descartou que a ideologia será um critério para avaliar a indicação de Daniel Perez ao cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil. No entanto, a forma como a indicação foi conduzida gerou incômodo no Itamaraty, uma vez que o processo não incluiu a consulta formal prévia ao governo brasileiro, o que pode levar a um novo atrito diplomático entre os dois países.
Na formalidade diplomática, é praxe que os governos realizem uma consulta confidencial sobre o nome de um embaixador antes de anunciá-lo publicamente, um processo conhecido como “agrément”. Somente após essa consulta e o aval prévio do país anfitrião, a indicação é tornada oficial. A ausência desse procedimento na indicação de Daniel Perez foi o ponto de atrito para a diplomacia brasileira, que entende ser fundamental seguir os protocolos estabelecidos nas relações internacionais.
Daniel Perez, o escolhido pelo governo de Donald Trump, é um parlamentar da Flórida e um defensor notório do movimento “Make America Great Again” (MAGA), além de alinhar-se a pautas defendidas pelo secretário de Estado Marco Rubio. Filho de imigrantes cubanos, Perez nasceu em Nova York e mudou-se para a Flórida em 1993, integrando o Partido Republicano, o mesmo de Trump. Ele ocupa a presidência da Câmara da Flórida desde 2024, tendo sido cogitado para o cargo de procurador-geral do estado e estando atualmente em um embate político com o governador Ron DeSantis.
Apesar do forte alinhamento de Perez a pautas conservadoras, auxiliares da área diplomática do governo brasileiro garantem que critérios ideológicos não serão considerados na avaliação da indicação. Segundo essas fontes, a praxe é analisar o currículo do indicado e verificar se houve, em algum momento, atuação contra os interesses do Brasil. A avaliação geral do currículo é um procedimento padrão, e questões de diferença política ou ideológica, em tese, não deveriam ser critério para negar a autorização de atuação no Brasil, conforme interlocutores da área internacional do governo brasileiro.
Do ponto de vista simbólico e prático, a diplomacia brasileira ressalta a importância de ter um embaixador em Brasília, devido à maior capacidade de interlocução deste com o governo anfitrião, em comparação com um encarregado de negócios. Os Estados Unidos estão sem um embaixador no Brasil desde janeiro de 2025. Atualmente, a missão diplomática americana é liderada pelo encarregado de negócios Gabriel Escobar, que será substituído por Natasha Franceschi a partir de julho, enquanto a indicação de Perez aguarda aprovação do Senado norte-americano e o eventual agrément brasileiro, que seria um gesto positivo nas relações bilaterais.



