Uma moradora de um condomínio na Tijuca, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, relatou os momentos de terror vivenciados durante as agressões cometidas pelo lutador de jiu-jítsu Lucas Portela Fontana Gomes, de 32 anos. O episódio ocorreu na quinta-feira (05/11) e resultou em uma fratura no rosto da vítima, além de fortes dores corporais e do sobressalto causado pelas insistentes ameaças de morte proferidas pelo agressor.
Em depoimento prestado à GloboNews, a mulher descreveu a intensidade da violência empregada pelo lutador. “Ele tinha ódio, muito ódio. Ele estava com a intenção de matar alguém. Ele falava o tempo todo só em matar”, afirmou a residente, que habita no edifício há seis anos e declarou que jamais havia visto o agressor antes do ocorrido.
Segundo o relato das vítimas e o registro policial, a confusão teve início por volta de 1h, quando Lucas teria invadido o apartamento de uma vizinha no terceiro andar e agredido uma idosa. Familiares da senhora conseguiram escapar do imóvel e se dirigiram até a portaria do prédio para pedir auxílio, alertando os demais moradores com gritos de socorro.
Ao ouvir o barulho e tomar conhecimento de que uma moradora idosa estava sendo atacada, a segunda mulher subiu as escadas para averiguar a situação. No entanto, ao se aproximar do elevador, deparou-se com Lucas descalço e sem camisa, momento em que o homem exigiu submissão antes de dar início ao espancamento.
“Eu não imaginava que iria me atacar daquela forma porque eu não fiz nada. Ele começou mandando eu ajoelhar para me agredir. Eu pensei que ele estivesse de brincadeira, mas não. Ele falou: ‘Ajoelha, ajoelha’. Eu não ajoelhei e ele começou a me espancar”, detalhou a moradora sobre a abordagem violenta.
No decorrer do ataque, o atleta aplicou socos na cabeça da vítima e tentou imobilizá-la por meio do golpe conhecido como “mata-leão”. A mulher relatou ter ficado à beira da perda de consciência por conta do sufocamento e temeu que não sobreviveria ao atentado.
“Quando ele tentou me dar um mata-leão, eu quase desmaiei, mas consegui reagir. Foi aí que clamei por Deus. Pensei: ‘Meu Deus, será que eu vou morrer?’. Eu estava ficando sufocada”, relembrou a moradora ao detalhar a investida corporal.
A moradora chamou a atenção para o fato de o homem ter focado suas investidas exclusivamente em alvos femininos durante toda a ação. “Só agrediu mulheres. O problema dele era com mulher, não sei por quê. Ele só agrediu as mulheres e tentou invadir apartamento onde tinha mulher”, declarou.
A vítima explicou ainda que o agressor chegou a arrombar portas de outros apartamentos enquanto gritava que tiraria a vida das pessoas, o que gerou o temor generalizado de que ele estivesse portando uma arma de fogo. “Do jeito que ele estava agindo, pensei que ele tivesse uma arma e fosse matar todo mundo. Era só isso que ele falava. Repetia que ia matar todo mundo”, disse.
Socorrida por uma equipe do Corpo de Bombeiros, a moradora foi encaminhada ao hospital, onde exames diagnosticaram a fratura em um osso do rosto. A paciente permanece sob medicação para aliviar dores intensas na cabeça, braço, barriga e abdômen, e precisará retornar à unidade médica para passar por novos exames e avaliar a necessidade de uma cirurgia facial.
“Eu fraturei um osso no rosto. Talvez tenha que fazer uma cirurgia. Ainda sinto muita dor na cabeça, no braço, na barriga, no abdômen. Estou tomando medicação, mas tenho que retornar para refazer os exames”, explicou. No hospital, a vítima também obteve informações sobre o estado da idosa agredida, que chegou a ficar desacordada no chão durante a invasão do imóvel.
Para além dos danos corporais, a mulher destacou a gravidade do abalo psicológico resultante da agressão. “Apesar das dores do corpo, eu acho que a dor da alma é pior. A do corpo a gente cuida, mas agora a da alma já é complicado”, desabafou.
A moradora ressaltou seu temor de que o agressor possa voltar a atacar outras pessoas caso retorne ao local. “Ele poderia ter tirado a vida de alguém, igual à senhorinha que ficou desacordada no chão. A minha também. Ou até mesmo de uma criança. É muito assustador, porque, se ele fez isso comigo, vai fazer com outras pessoas, outras mulheres, até chegar ao ponto de matar alguém”, declarou.
Diante da gravidade do ocorrido, a vítima cobrou garantias de proteção para continuar habitando o condomínio. “Eu preciso ter a certeza de segurança aqui no condomínio. Se ele voltar para cá, já não sei como vai ser. É uma pessoa que passa medo. Não dá para conviver”, ponderou.
A advogada criminalista Marisa Dreys, que assumiu a representação jurídica das vítimas, confirmou que solicitou formalmente a concessão de medidas protetivas de urgência. A defensora ressaltou que a atuação visa dar suporte psicológico e jurídico às mulheres, além de juntar provas para a instrução do processo criminal.
Marisa Dreys pontuou que os registros gravados por câmeras do elevador mostram apenas um trecho da gravidade dos fatos. “Essas imagens mostram a violência do ato, mas elas não mostram o medo, a dor e as consequências que essas mulheres terão daqui para frente”, explicou a advogada.
“A nossa atuação jurídica, técnica, é no sentido de acolhimento em primeiro lugar, das medidas protetivas que já foram solicitadas e da coleta de provas para facilitar a instrução criminal da melhor maneira”, completou a jurista sobre a conduta do caso.
A defensora criminalista fez questão de elogiar a atuação das forças de segurança que atenderam ao chamado no condomínio. “É preciso destacar o excelente trabalho da polícia, porque, ainda que haja leis, se elas não forem bem aplicadas, isso não adianta nada. O que eu pude presenciar foi um excelente trabalho da delegacia”, observou.
Durante a manhã do mesmo dia, policiais militares do 6º BPM (Tijuca) e agentes da Guarda Municipal foram mobilizados para conter a situação. No momento da abordagem, Lucas reajustou sua postura de confronto e tentou subtrair a arma de fogo pertencente a um dos policiais militares.
Em resposta à investida contra a equipe policial, os agentes efetuaram disparos na região das pernas do homem. Mesmo atingido, o lutador continuou resistindo à prisão e tentou empreender fuga pelas escadas, sendo imobilizado definitivamente após o emprego de uma arma de choque elétrico.
Lucas Portela Fontana Gomes foi preso em flagrante sob a acusação de tentativa de feminicídio. A prisão em flagrante foi posteriormente convertida em prisão preventiva pela Justiça, e o homem foi transferido para o Presídio de Benfica, onde permanece recluso à disposição das autoridades judiciais.

