A cantora e compositora Liniker marcou um momento histórico para a música nacional no último sábado (11), ao se tornar a primeira mulher trans a lotar um estádio no Brasil. O evento, realizado no Nubank Parque, atraiu uma multidão de 48 mil pessoas para a grandiosa estreia da sua turnê “Bye Bye Caju”. A apresentação representou um marco significativo em sua carreira.
A performance no Nubank Parque celebrou uma década de trajetória artística de Liniker e simbolizou a despedida do aclamado álbum “Caju”, um trabalho que conquistou três prêmios no Grammy Latino. Com sua primeira apresentação solo em uma arena de grande porte, a artista consolidou-se como uma verdadeira diva pop. No entanto, o triunfo e a representatividade desse feito inédito foram lamentavelmente ofuscados por manifestações de violência digital.
A publicação do Nubank Parque que registrava o show histórico na plataforma Instagram transformou-se em palco para uma enxurrada de crimes de transfobia e discursos de ódio. Internautas utilizaram o espaço dos comentários para desferir ataques diretos à identidade de gênero da artista, expondo o preconceito estrutural que corpos trans ainda enfrentam na sociedade, mesmo em momentos de grande sucesso e quebra de recordes. Mensagens agressivas como “Quem é esse traveco?” e questionamentos do tipo “Quem é esse?” tomaram conta da seção de comentários.
Paralelamente às ofensas de cunho transfóbico, a intolerância também se manifestou em forma de um forte elitismo cultural e um saudosismo hostil, direcionados a desmerecer a relevância da atual produção musical brasileira. Usuários deixaram comentários depreciativos afirmando que “a música brasileira despencou igual o futebol” e lamentando o cenário atual com frases como “Meu Deus, acabaram com a música brasileira. Não faço ideia de quem que é”. Houve ainda quem utilizasse o espaço para atacar o nível artístico contemporâneo, cravando que “o melhor para a música tanto aqui quanto nos Estados Unidos foi nos anos 80” e disparando que “é tanta coisa que aparece do nada, o Allianz já teve tanto show bom”.
O episódio de violência digital escancara que, para além da barreira do preconceito estético, o pioneirismo de uma mulher trans preta no topo da indústria musical brasileira, capaz de arrastar multidões e quebrar recordes históricos, ainda atrai as piores manifestações do conservadorismo nas redes sociais. O sucesso e a representatividade de Liniker, em vez de serem celebrados universalmente, enfrentam a persistência de preconceitos enraizados na sociedade, evidenciando a necessidade contínua de combate à transfobia e ao elitismo cultural.



