O retorno do El Niño e seus riscos para a economia global

4 Min de Leitura
Créditos: Imagem/Divulgação

O fenômeno climático El Niño tem seu retorno esperado para este ano, representando um novo desafio para a economia global. Meteorologistas em diversos países indicam uma alta probabilidade de sua formação, com temperaturas oceânicas anormalmente elevadas que sugerem a ocorrência de um episódio severo, cujo pico é usualmente observado próximo ao fim do ano. A manifestação do El Niño ocorre quando os ventos alísios no Pacífico tropical enfraquecem e a superfície do mar se aquece, com duração típica de até um ano.

Este retorno do padrão climático ocorre em um momento em que a economia mundial já enfrenta os impactos de outros fatores, como a guerra no Irã, e tem seus efeitos potencializados pelas mudanças climáticas globais. Historicamente, o El Niño se manifesta através do enfraquecimento dos ventos alísios no Pacífico tropical e o consequente aquecimento da superfície do mar. O fenômeno costuma ter uma duração de aproximadamente um ano, atingindo seu ápice por volta do final do ano.

O último episódio significativo do El Niño, registrado entre 2022 e 2023, deixou um rastro de impactos econômicos e sociais consideráveis em várias regiões. Naquela ocasião, a Índia chegou a implementar a proibição de exportações de arroz, enquanto uma epidemia de dengue assolava populações e os níveis de água no Canal do Panamá foram severamente reduzidos. O Brasil, por sua vez, enfrentou enchentes de grande magnitude, e o setor de alimentos observou um aumento nos preços do chocolate. Atualmente, a iminência de um novo El Niño já gera preocupação entre agricultores na Ásia, que já lidam com custos elevados de diesel e fertilizantes.

No setor energético, a formação do El Niño adiciona incerteza, especialmente com a questão sobre a reabertura do Estreito de Ormuz. Jason Ying, estrategista de commodities do BNP Paribas, alertou para a possível elevação da demanda por gás natural liquefeito (GNL) na Ásia devido ao uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado em decorrência das altas temperaturas. Essa demanda pode levar ao desvio de cargas de GNL destinadas à Europa, comprometendo os estoques do continente antes do inverno. A Índia, por exemplo, já enfrenta uma intensa onda de calor, e as previsões indicam chuvas abaixo da média na próxima temporada de monções. Anos de El Niño são frequentemente mais quentes, impulsionando o consumo de energia para refrigeração e, consequentemente, reduzindo a geração hidrelétrica e incentivando o uso de gás natural e carvão, como visto na China no último evento. No mercado de commodities agrícolas, o cacau teve seus preços elevados após danos às plantações em Gana e na Costa do Marfim, e analistas preveem possíveis altas para produtos como açúcar e borracha natural.

A complexa rede de padrões climáticos globais, cuja ligação foi identificada há cerca de um século pelo cientista Gilbert Walker, conhecido como “Boomerang”, continua a ser estudada. O nome “El Niño” — originalmente “El Niño de Navidad” — surgiu entre pescadores peruanos que observavam anomalias de calor que prejudicavam as pescarias no período natalino. É importante notar que, embora seja desafiador isolar os efeitos diretos do El Niño de outros eventos extremos, os impactos recentes são inegavelmente agravados pelo aquecimento global. Andrew Watkins, cientista climático da Universidade Monash, ressalta que o fenômeno atua como um “multiplicador de risco” para eventos extremos que já são intensificados pela queima de combustíveis fósseis. Diante desse cenário, autoridades meteorológicas e diversos setores econômicos mantêm-se em alerta, monitorando de perto a evolução das temperaturas oceânicas e as projeções sazonais.

- Publicidade -
Compartilhe este artigo