A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou um pacote de medidas estratégicas para reforçar o controle sanitário de medicamentos injetáveis destinados ao emagrecimento, especificamente os agonistas de GLP-1, que incluem substâncias como semaglutida, tirzepatida e liraglutida. A iniciativa ocorre em resposta ao crescente número de irregularidades identificadas na importação de insumos farmacêuticos e na produção desses fármacos por farmácias de manipulação em todo o país.
Entre as ações previstas pela agência reguladora, destacam-se a revisão das regras atuais que regem esses produtos, a intensificação das fiscalizações em estabelecimentos e a possibilidade de suspensão do funcionamento de empresas consideradas de alto risco. Além disso, a Anvisa planeja expandir as inspeções em empresas responsáveis pela importação de insumos farmacêuticos e fortalecer parcerias com órgãos reguladores internacionais para um controle mais efetivo da cadeia de suprimentos. Um grupo de trabalho, composto por entidades médicas e do setor de saúde, será criado para acompanhar de perto o tema, visando conter práticas que possam comprometer a segurança dos pacientes. O diretor Leandro Safatle esclareceu a medida: “Não estamos proibindo a manipulação. O que está sendo feito é o aperfeiçoamento desse normativo para possibilitar e dar essa garantia”.
Dados levantados pela própria Anvisa revelam um descompasso significativo entre a quantidade de insumos importados e a demanda esperada no Brasil. No segundo semestre de 2025, o país recebeu aproximadamente 130 quilos dessas substâncias, volume que seria suficiente para produzir até 25 milhões de doses. No caso específico da tirzepatida, os pedidos de importação feitos entre novembro de 2025 e abril de 2026 superaram 100 quilos, montante equivalente a cerca de 20 milhões de doses. Parte dessas solicitações, 14 pedidos para ser exato, foram negados em março por problemas relacionados ao controle de qualidade, evidenciando as falhas na origem dos materiais.
A fiscalização sanitária também identificou falhas relevantes na cadeia de produção. Em 2026, foram realizadas 11 inspeções, um número superior ao registrado em todo o ano anterior, resultando na interdição de oito empresas, que incluíam tanto farmácias de manipulação quanto uma importadora. Os principais problemas encontrados abrangem falhas nos processos de esterilização, ausência de controle de qualidade adequado e a utilização de insumos sem a devida comprovação de origem. Ao todo, mais de 1,3 milhão de unidades de produtos estéreis foram apreendidas devido a essas irregularidades. Outro ponto de preocupação é o aumento dos relatos de eventos adversos associados ao uso desses medicamentos, com dados do sistema VigiMed indicando um crescimento nas notificações, muitas delas sem identificação clara da origem do produto. Um estudo referenciado pela agência aponta que cerca de 26% dos casos estão relacionados ao uso fora das indicações aprovadas em bula, conhecido como uso “off-label”, o que eleva consideravelmente os riscos à saúde dos usuários.
O interesse por medicamentos à base de semaglutida, popularizados para o tratamento de diabetes e emagrecimento, projeta uma expansão ainda maior no mercado brasileiro, especialmente após a expiração da patente da substância no Brasil em março deste ano. Essa mudança abre caminho para a chegada de novos produtos, com oito pedidos de registro já em análise na agência e outros nove aguardando o início da avaliação técnica. Diante desse cenário de crescimento e da importância de proteger a saúde pública, a Anvisa reitera que nenhum produto pode ser comercializado sem a devida comprovação de eficácia, segurança e qualidade, atestadas por meio de registro oficial. O reforço regulatório é considerado essencial para acompanhar a expansão desse mercado, assegurando que o aumento da oferta ocorra em conformidade com os rigorosos padrões sanitários exigidos.



