O cenário artístico nacional lamenta a perda do ator Rui Rezende, conhecido por seu marcante papel como Lobisomem na novela “Roque Santeiro” (1985). O artista faleceu aos 87 anos neste domingo, 12 de julho, após um período de internação. Ele estava hospitalizado desde o dia 2 de julho no Hospital São Francisco na Providência de Deus, localizado na Tijuca, Rio de Janeiro, onde recebia cuidados médicos.
Desde 2019, Rui Rezende residia no Retiro dos Artistas, uma instituição que se tornou seu lar e onde encontrou amparo, carinho e respeito, conforme comunicado emitido pela própria instituição. A notícia de seu falecimento, portanto, foi recebida com grande pesar entre os amigos, colaboradores e admiradores que acompanharam sua trajetória. A última grande manifestação pública do ator foi em uma entrevista concedida para a série “Envelhecer é uma arte”, gravada nas instalações do Retiro dos Artistas, onde ele compartilhou reflexões sobre sua vida e carreira.
Na sua última entrevista, Rui Rezende relembrou a forte conexão com seu personagem mais célebre. “Eu era o lobisomem”, afirmou, surpreso com a duradoura lembrança do público. Ele explicou que essa identificação vinha de sua própria origem e personalidade. “Eu sou da roça. Nasci no campo. Tenho esse lado de bicho do mato. Nunca fui de turma. E aquele personagem era um sujeito recuado da existência humana. Aquilo dava o tom do personagem”, detalhou. A fama, segundo ele, nunca o “encastelou”, e ele mantinha uma vida simples, pegando ônibus mesmo no auge de “Roque Santeiro”, disfarçando para evitar o “buchicho”.
Ainda em suas reflexões, o ator comentou sobre as relações profissionais, declarando: “Não fiz amigos. Fiz colegas”. Ele avaliou que isso pode ter custado a participação em muitas coisas, mas era sua natureza. Sem arrependimento, via como uma constatação de quem ele era, embora admitisse que hoje, com a sabedoria da idade, cometeria “muito menos erros”. Entre seus acertos, destacou a cautela com as drogas, temendo gostar da cocaína. Recentemente, ele também teve a honra de atuar em um filme, “Nós que nos queremos tão pouco”, baseado em uma peça que escreveu na década de 80, dirigido por Lisiane Cohen, interpretando o pai das personagens femininas.
Nos seus últimos anos, Rui Rezende revelou que encontrava prazer em pequenas coisas, como o cafezinho e a leitura, que o ajudou a evoluir e a diminuir seus “dramas existenciais”, tornando-o “menos bicho do mato”. Embora tivesse projetos de escrita, confessou ter parado por falta de leitores. O ator mantinha contato com a filha e a ex-mulher, Eva, a quem ajudou em Miami após uma cirurgia, transformando a relação em uma “grande amizade”. Ele considerava que, com a idade, as viagens se tornaram mais difíceis, mas afirmava não ser infeliz, encontrando tranquilidade e ainda sonhando para “não morrer em vida”, mesmo com a redução da ansiedade por novos trabalhos na televisão, que pouco oferece papéis para idosos.



