O ator Nico Puig, de 53 anos, conhecido por papéis de destaque na televisão brasileira nos anos 90, como em “Sex Appeal” e “Olho no Olho”, compartilhou abertamente suas vivências como galã e os desafios enfrentados devido ao preconceito. Em entrevista, ele detalhou a complexidade de sustentar a imagem pública enquanto lidava com uma vida pessoal marcada pela homofobia, que não era criminalizada no Brasil até 2019. Sua trajetória profissional na TV Globo e Record, iniciada antes dos 15 anos, contrasta com as inseguranças e temores vivenciados por trás das câmeras, culminando em uma vida mais tranquila hoje ao lado do marido, Jefferson Lattari.
A ascensão de Nico Puig ao estrelato na década de 90 o consolidou como um ‘sex symbol’, impulsionado por uma extensa lista de trabalhos publicitários e novelas. Contudo, enquanto personificava o “menino mulherengo e cheio de marra” na tela, o ator confessou sentir-se “frágil, inseguro e com a autoestima baixa”, vivenciando cada novo trabalho como uma “fraude prestes a ser descoberta e, possivelmente, execrada”. Esse contexto de ausência de proteção legal contra a homofobia impulsionava a necessidade de manter uma imagem que não correspondia à sua realidade, um fardo que o levou a momentos de extremo sofrimento e a cogitar “colocar um fim no próprio sofrimento” por não encontrar outra saída.
Um marco em sua trajetória foi a participação no episódio “Gay, quando eles amam”, do programa “Você Decide”, em 1997. Embora tenha sentido um misto de alegria e euforia pela oportunidade de abordar o tema, Nico Puig admitiu ter sentido “medo de abrir espaço para questionamentos”. A decisão do público de separar os personagens, acompanhada por ele e Jefferson Lattari, resultou em profunda tristeza. “Nunca imaginei que aquela história de amor fosse condenada e não aceita. Jeff e eu choramos abraçados por um longo tempo, entendendo que aquele veredito se aplicava a nós: ‘Nunca seremos aceitos'”, revelou o ator, reforçando o impacto social da decisão e o sentimento de desamparo que muitos jovens da época compartilhavam.
A decisão de assumir publicamente o relacionamento com Jefferson Lattari foi “pensada, planejada e consciente”, gerando reações diversas: alguns aplaudiram, outros se afastaram, e o casal enfrentou piadas preconceituosas, ameaças e a perda de trabalhos. Nico Puig lembrou que pessoas que antes o consideravam uma “promessa” na área mudaram de opinião, julgando-o não só por sua escolha, mas também desclassificando-o profissionalmente. Em um período em que Jefferson chegou a se sentir culpado, o casal buscou refúgio em São Francisco, nos Estados Unidos, mas retornou ao Brasil devido à luta da mãe de Nico contra a esclerose múltipla. O casamento, oficializado em 2015, fortaleceu o casal e foi bem recebido por ambas as famílias, embora dados da organização Gênero e Número indiquem que seis a cada dez pessoas LGBTQIAPN+ são agredidas por parentes. É crucial ressaltar que o Brasil, em 2025, registrou 257 mortes violentas de pessoas da comunidade LGBT+, conforme relatório anual do Grupo Gay da Bahia, refletindo a dura realidade enfrentada por essa população.
Após os desafios, Nico Puig encontrou na carreira de design uma forma de se reinventar, resgatando e transformando objetos descartados. Ele traça um paralelo entre sua nova profissão e a sensação de ter sido “descartado” na carreira artística, transformando o que para muitos é lixo em algo útil e belo. O ator reflete sobre a importância de viver a própria verdade e expressa a esperança de ter “aberto portas ou ter sido um exemplo de resiliência” para a nova geração de atores. Conclui com uma mensagem inspiradora para seu eu mais jovem: “A vida é uma só. Faça a cada dia o seu melhor. Não espere nada do outro, mas ame sempre a si mesmo e a quem te mereça. Você é singular e, ao contrário do que dizem por aí: ninguém é substituível'”, enfatizando a necessidade de empatia e o direito de todos à felicidade.



