O Brasil vem ganhando protagonismo na estratégia internacional de investimentos da China. Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o país recebeu mais de US$ 6,1 bilhões em investimentos chineses em 2025. O resultado colocou o mercado brasileiro como o principal destino mundial desses aportes no período.
O movimento também se reflete no comércio exterior. Entre janeiro e setembro de 2026, as transações comerciais entre os dois países alcançaram US$ 143,3 bilhões, crescimento de 11,1% na comparação anual, consolidando um novo recorde para o período.
Mais do que uma relação comercial tradicional, a aproximação entre Brasil e China avança para áreas estratégicas como infraestrutura, indústria automobilística, energia, automação e tecnologia.
Para Enzo Ribeiro, presidente da SYNVEX e especialista em conexões empresariais entre Brasil e China, essa expansão demonstra uma mudança na maneira como investidores chineses enxergam o país.
“O Brasil deixou de ser visto apenas como um mercado consumidor e passou a ocupar uma posição estratégica nos planos de expansão das empresas chinesas. Hoje, existe interesse em estabelecer operações, desenvolver parceiros locais e construir negócios de longo prazo. Essa aproximação é impulsionada por interesses econômicos que ultrapassam os ciclos políticos”, afirma Ribeiro.
A presença de fabricantes como BYD e GWM evidencia essa transformação. Além da comercialização de veículos, os investimentos envolvem estruturas industriais, desenvolvimento de fornecedores e geração de empregos, fortalecendo a participação chinesa na economia brasileira.
Segundo Ribeiro, o avanço dessas empresas abre oportunidades que vão muito além da importação de produtos.
“A China se tornou uma referência mundial em capacidade industrial e desenvolvimento tecnológico. O empresário brasileiro precisa compreender que existem oportunidades em inovação, transferência de conhecimento, parcerias estratégicas e novos modelos de negócio. Quem souber construir essas conexões terá vantagens competitivas importantes nos próximos anos”, destaca.
Norte e Centro-Oeste ampliam oportunidades com a tecnologia chinesa
O crescimento das relações econômicas também começa a criar novas perspectivas para estados fora dos grandes centros industriais. Rondônia e Mato Grosso, que já possuem vínculos comerciais relevantes com a China por meio do agronegócio, apresentam oportunidades de expansão em infraestrutura, tecnologia e mobilidade.
Em 2025, as exportações rondonienses de carne bovina para o mercado chinês movimentaram aproximadamente US$ 688 milhões. Em Mato Grosso, a China permanece como um dos principais parceiros comerciais, especialmente na aquisição de produtos agropecuários.
Para a advogada e empresária Flaviana Moreira, a aproximação entre os países representa uma oportunidade de modernização econômica e tecnológica dessas regiões.
“Rondônia e Mato Grosso possuem um potencial de crescimento muito expressivo. A tecnologia chinesa pode contribuir diretamente para o desenvolvimento regional, trazendo soluções modernas, ampliando a infraestrutura e criando novas oportunidades de investimento. Precisamos aproveitar esse momento para conectar nossa região às transformações que já acontecem no mundo”, avalia.
Flaviana prepara a implantação de um projeto apresentado como o primeiro eletroposto 100% autônomo e tecnológico de Porto Velho, iniciativa que busca antecipar a demanda gerada pela chegada de veículos elétricos à capital rondoniense.
“Acreditamos no potencial da mobilidade elétrica na Região Norte e queremos preparar Porto Velho para essa nova realidade. Investir em tecnologia é também investir no futuro da cidade, oferecendo uma infraestrutura moderna e criando oportunidades para o desenvolvimento econômico local”, explica a empresária.
A iniciativa acompanha o avanço nacional da eletrificação. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil ultrapassou, em setembro de 2026, a marca de 1 milhão de veículos leves eletrificados comercializados desde 2012. Paralelamente, a rede pública e semipública de recarga se aproxima de 30 mil pontos espalhados pelo país, o que demonstra que o mercado já está defasado e tem muito a expandir.
Para o empresário Mário Minduca, o avanço da mobilidade elétrica representa uma transformação definitiva na infraestrutura brasileira e abre espaço para novos investimentos.
“A tecnologia de pontos de recarga veio para ficar. Estamos diante de um mercado que ainda tem muito espaço para crescer, especialmente em regiões onde a infraestrutura está começando a se desenvolver. Postos de combustíveis, estacionamentos e áreas comerciais poderão incorporar novos serviços e fontes de receita. Quem se preparar desde agora poderá aproveitar melhor essas oportunidades”, afirma.
Perspectivas para 2027 atraem novos investidores
Com o aumento dos investimentos chineses e a expansão de setores estratégicos, 2027 surge como um ano de novas oportunidades para empresas brasileiras interessadas em estabelecer parcerias internacionais.
À frente da SYNVEX, Enzo projeta trazer cerca de 60 empresas chinesas ao Brasil ao longo de 2027, promovendo encontros com empresários, investidores e grupos econômicos nacionais, além de apresentar oportunidades comerciais e de desenvolvimento tecnológico.
“Existe um interesse crescente das empresas chinesas pelo mercado brasileiro. Nossa projeção é trazer aproximadamente 60 companhias ao país no próximo ano, aproximando empresários e construindo oportunidades reais de negócios. O Brasil possui uma posição privilegiada na América do Sul e precisamos transformar esse potencial em investimentos concretos”, afirma.
Para o especialista, o cenário exige atenção dos empresários brasileiros que buscam diversificação e crescimento.
“Estamos vivendo uma transformação importante nas relações econômicas entre Brasil e China. Os investimentos estão avançando, novas tecnologias estão chegando e diferentes regiões do país começam a participar desse movimento. Quem compreender essa mudança e construir relacionamentos estratégicos agora estará mais preparado para aproveitar as oportunidades dos próximos anos”, conclui o especialista.


