Lewis Hamilton, heptacampeão mundial, manifestou‑se na coletiva de imprensa realizada na quinta‑feira (22), véspera do Grande Prêmio dos Estados Unidos, ao comentar o retorno da Fórmula 1 ao continente africano após 37 anos de ausência. O piloto, que também esteve presente no GP de Singapura ao lado de Lando Norris e Kimi Antonelli, que disputavam o terceiro lugar, ressaltou que a presença da categoria não pode ser interpretada como negligência dos desafios que a África enfrenta.
— É claro que ir para lá não significa que você esteja negligenciando as coisas que estão acontecendo lá. Então, espero que muitas pessoas comecem a se informar um pouco mais sobre o que está acontecendo lá, sobre o que aconteceu lá ao longo de centenas de anos, e espero que isso dê início a uma conversa — afirmou Hamilton.
O piloto ainda destacou que a história do continente deveria integrar o currículo escolar do Reino Unido, pois “muitos dos problemas que eles enfrentam lá ainda são resultado do colonialismo e da intervenção ocidental”. Em tom de solidariedade, pediu a “libertação” de alguns países africanos e de outras nações em conflito.
— Acho que precisamos garantir que estamos lutando pela libertação do Congo, do Sudão, da Síria e da Palestina. Acho que há muita paz que espero que alcancemos em algum momento — declarou.
Em paralelo, Hamilton elogiou a potência criativa da África, apontando que muitos designs de marcas renomadas têm origem no continente, que possui recursos “riquíssimos”. Expressou esperança de que as nações africanas se unam, ainda que reconheça a resistência de quem temia o fortalecimento da região.
— Se você for lá e observar as pessoas, verá que muitos dos designs de marcas renomadas que existem hoje vêm da África, um continente com recursos riquíssimos. Eu realmente espero, e ainda tenho esperança, que a África se una. Sei que muitas pessoas não querem que isso aconteça, porque seriam muito poderosas se isso ocorresse, mas ainda tenho esperança de que, em algum momento, isso aconteça — completou.
A Fórmula 1 confirmou, em 13 de outubro, um acordo de dez anos com Ruanda para a realização do Grande Prêmio da África. O contrato prevê a construção de um circuito permanente em Bugesera, a cerca de 40 km de Kigali, cuja estreia está prevista para o início da próxima década, possivelmente em 2030 ou 2031, dependendo do cronograma das obras.
O projeto do Rwanda International Circuit foi desenvolvido pelo ex‑piloto Alex Wurz, em colaboração com o escritório do engenheiro Hermann Tilke, conhecido por projetar diversos autódromos da categoria. O traçado deve combinar curvas de média e alta velocidade, inspiradas em circuitos tradicionais.
A última passagem da Fórmula 1 pelo continente ocorreu em 1993, com o Grande Prêmio da África do Sul, disputado no circuito de Kyalami e vencido pelo francês Alain Prost, então piloto da Williams. Desde então, a categoria avaliou outras possibilidades de retorno, incluindo projetos na própria África do Sul e no Marrocos.
O retorno à África desperta discussões sobre a situação de países como Ruanda. O país, localizado na África Oriental, tem sido alvo de críticas internacionais por supostas violações de direitos humanos, apoio ao grupo rebelde M23 na República Democrática do Congo e repressão a opositores, jornalistas e à comunidade LGBTQ+. Organizações como a Human Rights Watch denunciam prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos e até mortes de críticos.
A história recente de Ruanda inclui o genocídio de 1994, que ceifou cerca de 800 mil vidas em cem dias, quando extremistas hutu assassinaram tutsis e opositores políticos após a queda do avião do presidente Juvenal Habyarimana e do presidente do Burundi, Cyprien Ntaryamira. O grupo RPF, apoiado pelo exército ruandês, assumiu o poder; seu líder, Paul Kagame, foi eleito presidente e atualmente cumpre seu quarto mandato, vencido com 99 % dos votos.
Conflitos regionais também são citados por representantes congoleses. A ministra de Relações Exteriores da República Democrática do Congo, Therese Kayikwamba Wagner, enviou carta aos clubes Arsenal, Paris Saint‑Germain e Bayern de Munique, patrocinados por Ruanda, acusando o patrocínio de ser “diretamente responsável por essa miséria”.
— Milhares de pessoas estão cercadas em Goma, com restrições de acesso à água, comida, segurança. Muitas vidas foram perdidas. Estupros, assassinatos e roubos perduram. O seu patrocínio é diretamente responsável por essa miséria — declarou Wagner.
Em análise paralela, o site espanhol AS destacou que, apesar da atenção voltada a Kimi Antonelli, o título nos Estados Unidos permanece uma missão complicada, enquanto Bortoleto vê chances de melhorar após dificuldades na estreia em Austin. O canal de automobilismo do GE também disponibiliza conteúdo via WhatsApp.
A presença de Hamilton no paddock do GP do Azerbaijão de 2026, registrada por Igor Ivanko/AFP, ilustra o engajamento do piloto com a categoria e reforça sua posição como porta‑voz de questões sociais e históricas ligadas ao continente africano.

