Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) distorceu dados sobre segurança pública, renda, Bolsa Família, juros e a resposta às enchentes no Rio Grande do Sul durante o debate transmitido pela TV Globo na sexta‑feira (23). O senador acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ter abandonado os gaúchos após as cheias de 2024, ao mesmo tempo em que minimizou ações federais de apoio.
Um levantamento de checagens classificou 22 das afirmações do candidato como falsas ou parcialmente falsas, com base em dados públicos, legislação e informações de órgãos federais. As constatações foram feitas a partir de documentos oficiais, relatórios de institutos de pesquisa e registros de operações de segurança.
Ao alegar abandono, Flávio ignorou o Auxílio Reconstrução, que concedeu R$ 5,1 mil a 426,9 mil famílias, totalizando cerca de R$ 2,2 bilhões, além da suspensão de parcelas da dívida estadual com a União. O senador também afirmou que Lula não entregou “nem 30%” do que prometeu ao Rio Grande do Sul, porém não há dado que sustente esse percentual; os balanços federais incluem transferências, crédito, obras e alívio da dívida, enquanto movimentos de atingidos cobram maior rapidez na entrega de moradias e reparações.
Na segurança, Flávio disse que o governo “liberou geral nas fronteiras” e que a criminalidade voltou “com força”. A Polícia Federal realizou 482 operações em regiões de fronteira em 2025, prendendo 663 pessoas, e o Decreto 11.765/2023 reforçou a presença das Forças Armadas no combate a crimes na faixa fronteiriça. Dados nacionais, porém, mostram queda nas mortes violentas intencionais, que passaram de 47.963 em 2022 para 40.775 em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, embora femicídios, estelionatos e mortes por intervenção policial tenham registrado alta no mesmo período.
Sobre o Bolsa Família, o senador atribuiu a criação do benefício mínimo de R$ 600 a Jair Bolsonaro. Na realidade, o valor vigorou de agosto a dezembro de 2022 após a aprovação da Emenda Constitucional 123; o projeto de orçamento enviado pelo governo Bolsonaro para 2023 previa R$ 400, e a Lei 14.601, sancionada por Lula, estabeleceu o piso permanente de R$ 600.
Ao afirmar que o poder de compra dos trabalhadores foi destruído, Flávio deixou de considerar os números da PNAD Contínua, que apontam rendimento médio habitual de R$ 3.777 no trimestre encerrado em agosto de 2026 – alta de 3,7 % em relação ao ano anterior e cerca de 14 % acima do fim de 2022, já descontada a inflação.
Na discussão sobre endividamento, o candidato vinculou diretamente os juros das dívidas bancárias à taxa básica da economia. A Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, que goza de autonomia legal, recuou de 15 % para 13,75 % em 2026. As taxas cobradas dos consumidores variam conforme modalidade, risco e condições contratuais; em agosto, o crédito livre para famílias custava, em média, 61,7 % ao ano.
Por fim, Flávio afirmou que a meta de universalização do saneamento havia sido adiada para depois de 2050. A legislação, contudo, mantém a previsão de atender 99 % da população com água potável e 90 % com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033. Estudos apontam risco de atraso no cumprimento da meta, mas não registram alteração no prazo legal.

