A multinacional de tecnologia Microsoft distribuiu conteúdos enganosos e peças de desinformação voltadas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por meio do portal MSN e do painel de notícias integrado ao sistema operacional Windows. A veiculação do material foi revelada por uma apuração do Intercept Brasil, que identificou como origem das publicações a parceira 111Next, produtora vinculada à empresa Jetss Comunicação Ltda.
A Jetss Comunicação Ltda. está registrada em nome de Mauro e Graziela Alves Souza. Mauro disputou uma vaga de deputado federal pelo Rio de Janeiro pelo Partido Liberal (PL) em 2022, utilizando o slogan “Eu, você e Bolsonaro no combate a corrupção”, mas não foi eleito nem voltou a se candidatar no pleito deste ano. A direção da Jetss.com Inc., sediada em Miami, nos Estados Unidos, é exercida por sua filha, Camila Alves Souza, que também se apresenta como fundadora da rede 111Next.
Entre as publicações disseminadas figurava a reciclagem de um material veiculado pela Record em 2019, cujo objetivo era associar o presidente ao assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, ocorrido em 2002. A acusação jamais foi comprovada, fundamentando-se exclusivamente em relatos sem provas apresentados pelo publicitário Marcos Valério sobre o que teria ouvido de terceiros, sem que Lula jamais tivesse sido indiciado, denunciado ou julgado como mandante do homicídio.
Em outro conteúdo, a produtora utilizou montagens para sugerir que os músicos Caetano Veloso e Djavan teriam recebido, respectivamente, R$ 4,3 milhões e R$ 4,1 milhões para atuar no Ato Musical pela Democracia, realizado no domingo (18) em Copacabana. O próprio texto da publicação, contudo, reconhecia que os valores diziam respeito a projetos culturais sem ligação com o evento e admitia não haver registros de financiamento público para a manifestação.
A circulação dos materiais também alcançou os usuários diretamente na área de trabalho dos computadores por meio da publicação “13 motivos para não votar no Lula”, mantida em destaque no painel de notícias do Windows com dados desatualizados e fora de contexto. Além disso, a página oferecia um tutorial com orientações para rebater alegações de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) representaria uma ameaça à democracia.
O canal mantido pelo 111Next no MSN acumulava quase 100 mil seguidores, embora o alcance total de leitores das publicações não possa ser precisado. As recomendações dos artigos em produtos da empresa de tecnologia são distribuídas com o uso de sistemas de inteligência artificial para a personalização de conteúdos.
Procurada na sexta-feira (16), a Microsoft declarou inicialmente que analisava os conteúdos reportados e lembrou que suas políticas preveem a remoção de publicações e a rescisão contratual em casos de violação. Posteriormente, a empresa informou ter retirado do ar os materiais apontados na apuração, incluindo a desinformação sobre Celso Daniel e a lista com ataques ao PT, alegando combinar revisão humana e automação contra conteúdos enganosos. A Jetss e os demais citados não responderam aos contatos até a publicação da matéria.



