Um episódio extremo do El Niño pode reduzir em torno de 2 % o Produto Interno Bruto da América Latina e do Caribe ao longo de três anos e levar até 4,8 milhões de pessoas à pobreza até 2030, segundo estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). O órgão destaca que os prejuízos econômicos podem se estender por até três anos após o início do fenômeno, com metade das perdas previstas ocorrendo já no primeiro ano.
O relatório da Cepal aponta que a queda na produção agrícola, as alterações nas condições de pesca e as dificuldades para gerar eletricidade podem elevar os custos para empresas e consumidores, pressionando os preços de alimentos e energia. No setor energético, a vulnerabilidade é acentuada em países onde mais de 70 % da eletricidade provém de usinas hidrelétricas, muitas delas com mais de três décadas de operação. A redução das chuvas diminui o volume dos reservatórios, comprometendo a geração, enquanto o aumento das temperaturas eleva a demanda por ar‑condicionado e outros equipamentos de refrigeração, potencializando a elevação das tarifas e o risco de interrupções no fornecimento.
A temperatura mais alta das águas oceânicas pode modificar a disponibilidade de nutrientes, afetando a fauna marinha e deslocando espécies de peixes importantes para a pesca. O documento ressalta os riscos para as áreas de pesca do Pacífico, sobretudo nas zonas próximas ao Peru, Chile e Equador, citando que, durante o El Niño de 1972‑1973, a captura média de peixes na região caiu 52,7 % em relação aos dois anos anteriores, e que no evento de 1997‑1998 a redução foi de 26,9 %.
Em regiões agrícolas e de pastagem da América Central e do Caribe, a Cepal indica mais de 70 % de probabilidade de secas nos próximos meses, destacando o Corredor Seco Centro‑Americano, a Colômbia, a Venezuela e partes do Caribe. A escassez de água pode comprometer plantações e forragem, reduzir a oferta de alimentos, pressionar os preços e diminuir a renda de trabalhadores rurais e comunidades locais. Por fim, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima mais de 90 % de chance de que o Super El Niño atinja intensidade muito forte no outono e inverno de 2026‑2027, com temperaturas da superfície do mar potencialmente 2,5 °C acima da média, podendo ultrapassar 3 °C.



