A morte da renomada autora, diretora, ilustradora e ativista franco-iraniana Marjane Satrapi, aos 56 anos, reacendeu o debate sobre a possibilidade de falecer em decorrência do luto intenso. Familiares e pessoas próximas atribuíram a causa da morte de Satrapi à “tristeza” profunda que ela sofreu após a perda de seu marido, Mattias Ripa, que havia falecido pouco mais de um ano antes, em abril de 2025. O comunicado da família, enviado nesta quinta-feira (5/6) à agência AFP, destacou que Marjane Satrapi “morreu de tristeza” após a partida de seu grande amor.
Conhecida mundialmente pela série de graphic novels “Persépolis”, publicada no ano 2000, Marjane Satrapi narrou a sua própria história durante e após a Revolução Iraniana. A obra, que se tornou um marco, foi adaptada para o cinema em 2008, com codireção da própria Satrapi, e recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Filme de Animação. A nota de falecimento de Mattias Ripa, aos 53 anos, foi anunciada pela autora no jornal Le Figaro, onde ela expressou a “profunda tristeza” pela perda do “homem e o amor de sua vida”, com quem compartilhou 31 anos de uma “vida maravilhosa”.
A atribuição da morte de Marjane Satrapi à tristeza levanta a questão médica: o luto por alguém amado pode ser tão avassalador a ponto de causar a morte por causas naturais? Especialistas abordam a “síndrome do coração partido”, formalmente conhecida como cardiomiopatia induzida por estresse ou cardiomiopatia de Takotsubo. Esta condição temporária se caracteriza pelo enfraquecimento súbito do músculo cardíaco, onde o ventrículo esquerdo do coração, responsável por bombear o sangue, altera sua forma. A British Heart Foundation explica que o estresse súbito, como o luto, pode desencadear essa anomalia, que é diferente de um infarto, o qual geralmente ocorre por artérias obstruídas, conforme detalhado pela Universidade Johns Hopkins.
Estudos científicos têm explorado essa ligação. Uma pesquisa publicada em 2014 na revista JAMA Internal Medicine revelou que o número de pessoas que sofreram infarto ou AVC no mês subsequente à perda de um ente querido era o dobro em comparação com um grupo sem luto. No grupo enlutado de 30.447 pessoas, 0,16% apresentaram uma das condições, contra 0,08% no grupo controle. Sunil Shah, professor da Universidade de Londres e coautor do estudo, afirmou que o luto pode ter um efeito direto na saúde cardíaca, validando a expressão popular “coração partido”. Um exemplo notório é o falecimento da atriz Debbie Reynolds, aos 84 anos, um dia após a morte de sua filha, a também atriz Carrie Fisher.
Embora muitas pessoas se recuperem completamente da cardiomiopatia de Takotsubo, em casos de pacientes idosos ou com problemas cardíacos preexistentes, a alteração na forma do coração pode ter um desfecho fatal. Outras pesquisas, como um estudo de 2006 no New England Journal of Medicine e estudos de 2011, indicam um aumento do risco de morte para o parceiro sobrevivente nos seis meses seguintes ao falecimento do cônjuge. Especialistas sugerem que o apoio mútuo em um casamento atua como um alívio contra o estresse, e os parceiros frequentemente cuidam da saúde um do outro, incentivando hábitos saudáveis e a adesão a tratamentos médicos. A perda desse suporte vital pode, em situações extremas, impactar profundamente a saúde física.



