Muito antes de se tornar uma curiosidade pop por seu parentesco com a cantora Anitta, Raimundo Machado Azeredo já era uma lenda em Belo Horizonte. Nascido no final do século XIX, ele foi o visionário responsável por uma das obras de arte popular mais importantes do Brasil: o Presépio do Pipiripau.
A história começa em 1906, quando Raimundo, então com apenas 12 anos, iniciou a montagem do presépio em sua própria casa. O que começou pequeno, no entanto, transformou-se em uma obsessão artística que duraria a vida inteira. Diferente das lapinhas tradicionais que são montadas apenas no Natal, a obra de Machado era um projeto contínuo, onde ele aplicava seu conhecimento autodidata em mecânica, marcenaria e modelagem.
O grande diferencial do Pipiripau é a engenharia. Raimundo Machado utilizava materiais do cotidiano — como papel machê, gesso, madeira e, crucialmente, peças de relógios antigos e sucatas de metal — para dar vida às cenas. Ele criou um complexo sistema de engrenagens e cordões que faz com que as figuras se movam. Ao todo, a obra conta com 586 figuras, distribuídas em 45 cenas que narram não apenas o nascimento de Jesus, mas também a vida cotidiana de uma cidade, com ferreiros, lavadeiras e pescadores em movimento.
Durante décadas, o presépio ficava na residência da família no bairro Floresta, atraindo filas de visitantes que queriam ver a “mágica” acontecer. Raimundo dedicou cada minuto livre à manutenção e expansão desse universo particular até seu falecimento.
Hoje, tombado pelo IPHAN e abrigado no Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, o legado de Raimundo Machado permanece vivo. É um testemunho da criatividade mineira e da devoção de um homem que construiu, peça por peça, um mundo onde o tempo parece não passar.



