Nesta terça‑feira (20), a revista Piauí divulgou uma investigação que indica possíveis vínculos entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e a plataforma de apostas esportivas Best Bet. Segundo a reportagem, o candidato à Presidência seria “usuário máster” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, condição compartilhada com o advogado Willer Tomaz, já investigado por suspeitas de irregularidades financeiras. Diante dessas indícios, a Polícia Federal encaminhou ao Supremo Tribunal Federal um pedido para que seja instaurado inquérito visando apurar a hipótese de que Flávio Bolsonaro seria sócio oculto da referida operadora.
A Alcazar Holdings mantém relações empresariais com a Cathedral Holdings, controladora da Best Bet, que operava em parceria com a Loterj – loteria estadual do Rio de Janeiro – durante a gestão de Cláudio Castro, aliado político do senador. A reportagem da Piauí também revelou que a PF identificou movimentações financeiras e outros elementos em investigação sigilosa, embora os valores envolvidos não tenham sido divulgados. Em relatório obtido pela revista, os investigadores levantam a hipótese de que contas vinculadas a Tomaz funcionariam como um “ponto de concentração, circulação e redistribuição de recursos em favor de terceiros”, sem, contudo, constituir conclusão definitiva sobre a origem ou destinação dos recursos.
Em paralelo, o UOL publicou que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu notas fiscais que totalizam R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Parte desses pagamentos teria sido direcionada a uma conta no Santander, a mesma apontada como vinculada ao senador e a Willer Tomaz. Ambos contestaram as informações sobre o compartilhamento da conta, negando qualquer relação de titularidade ou uso conjunto.
A Piauí aponta ainda que a relação entre Flávio e Tomaz ultrapassaria o âmbito bancário. Segundo a revista, os dois teriam realizado viagens internacionais em jatinhos particulares, inclusive um deslocamento de Cascais, em Portugal, para Nice, na França, em 23 de maio de 2025. O voo teria sido contratado em nome da Cathedral Holdings, cujos cotistas incluiriam a Alcazar Holdings. A mesma reportagem indica que Flávio deixou de constar como “usuário máster” da conta da Alcazar em 22 de maio de 2025, após um pedido enviado ao Santander por Fayla Zulmira Menezes, funcionária de Tomaz, sem justificativa aparente.
No período mencionado, a Best Bet já havia perdido o direito de operar nacionalmente e encerrou suas atividades em meados de 2025. A trajetória da plataforma é descrita como marcada por disputas judiciais e regulatórias. Em julho de 2024, o governo federal avançou na regulamentação das apostas esportivas on‑line, o que levou a União a contestar a atuação nacional de empresas autorizadas apenas em âmbito estadual. A Loterj recorreu ao Judiciário e obteve liminar favorável no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF‑1), decisão que posteriormente chegou ao STF.
Em janeiro de 2025, o ministro André Mendonça decidiu que a Best Bet não poderia operar em âmbito nacional, restringindo sua atividade ao Rio de Janeiro. Na mesma época, Willer Tomaz teria convidado os senadores Dr. Hiran, presidente da CPI das Bets, e Soraya Thronicke, relatora da comissão, para discutir a situação da Loterj em seu escritório em Brasília. O então governador Cláudio Castro também compareceu ao encontro, surpreendendo os convidados, enquanto Hazenclever Cançado, presidente da Loterj, participou por videochamada.
A revista também aponta que empresários do setor de apostas, como Fernando Oliveira Lima – conhecido como Fernandin OIG, ligado à 7 Games Bet – e Ernildo Júnior de Farias Santos, proprietário da Pix Bet, manifestam apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Segundo a publicação, esses empresários teriam interesse em mudanças nas regras que regulam o mercado de apostas caso o senador seja eleito.
Ao ser questionado sobre a suposta conta bancária, Flávio Bolsonaro afirmou ao UOL que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”. Willer Tomaz, por sua vez, contestou as informações, alegando que a conta “nunca lhe pertenceu” e que “jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma”.
A Piauí informou que tentou obter esclarecimentos de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com a Alcazar, eventual participação na Best Bet e acesso aos negócios da Cathedral, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem. Da mesma forma, o veículo procurou Willer Tomaz para comentar a conta bancária, os vínculos contábeis entre a Cathedral e a Alcazar e a disputa judicial envolvendo a Best Bet, sem sucesso.
A investigação permanece sob análise das autoridades competentes, e as suspeitas apresentadas não constituem, por si só, prova de prática criminosa por parte dos envolvidos. O desdobramento do pedido da Polícia Federal ao STF e a eventual abertura de inquérito determinarão os próximos passos da apuração.
Enquanto isso, a controvérsia sobre a regulação das apostas esportivas continua a mobilizar atores políticos e empresariais, refletindo a complexa intersecção entre interesses econômicos, poder político e a busca por um marco regulatório nacional.

