A produtora Karina Ferreira da Gama, responsável pelo filme “Dark Horse” sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, assinou em novembro de 2021 um acordo de confidencialidade para prospectar negócios com uma empresa pertencente a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Revelado em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o documento antecede as tratativas sobre a cinebiografia e contrapõe a versão da empresária, que havia negado publicamente qualquer vínculo de sua produtora com o grupo financeiro do banqueiro.
O contrato previa a troca de informações voltadas à possibilidade de novos negócios com a Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, estipulando uma vigência de cinco anos que cobriu todo o período de produção do longa-metragem. O termo traz a assinatura de Ascendino Madureira Garcia, apontado pelas investigações da Polícia Federal como operador financeiro incumbido de movimentar os recursos de Vorcaro em fundos de investimento.
A existência do acerto contrasta com as declarações dadas por Karina em entrevista prestada à CNN Brasil no mês de setembro. Na oportunidade, a proprietária da Go Up Entertainment rechaçou qualquer transação comercial ao afirmar que “não existiu nenhuma relação da produtora com o Vorcaro” e que “não existiu nenhuma relação da produtora com as empresas do Vorcaro, não existiu”.
Em resposta, a defesa da empresária, conduzida pelo advogado Ricardo Sayeg, informou que Karina não se recorda da assinatura ou da existência do citado documento. Os defensores argumentaram que, caso tenha sido assinado, o acordo limitou-se estritamente à prospecção comercial e não gerou nenhum tipo de patrocínio ou captação de verbas para a obra.
A defesa salientou ainda que a produtora jamais manteve contato pessoal com Vorcaro, além de não conhecer nem se lembrar de Ascendino Madureira. Segundo os advogados, a submissão de projetos culturais a instituições do setor financeiro faz parte da rotina normal de suas atividades profissionais, descartando qualquer ligação entre a iniciativa de 2021 e o financiamento obtido posteriormente para “Dark Horse”.
As negociações relativas à produção do filme começaram em 2022, após a formalização do acordo prévio. Na ocasião, o então secretário especial de Cultura e atual deputado federal Mario Frias acertou com Bolsonaro a cessão dos direitos da obra e atribuiu a produção a Karina, que também havia atuado em sua campanha eleitoral naquele ano.
Mario Frias foi o responsável por apresentar a produtora aos integrantes da família Bolsonaro. A liberação dos recursos para a obra cinematográfica, no entanto, só ocorreu após intervenções e solicitações diretas do senador Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.
Conforme diálogos obtidos pela Polícia Federal, as tratativas envolveram o montante de US$ 23 milhões, dos quais aproximadamente US$ 10 milhões teriam sido repassados por meio de um operador financeiro a um fundo situado nos Estados Unidos. Esse fundo, constituído por um advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, teria posteriormente repassado os valores para a equipe de produção do filme.
A Polícia Federal ressaltou a existência de “divergências relevantes” na documentação apresentada pela Go Up Entertainment para justificar as remessas financeiras enviadas dos Estados Unidos ao Brasil. Atualmente, o modelo de financiamento do longa-metragem é alvo de duas linhas de investigação distintas em andamento no Supremo Tribunal Federal.
Uma das apurações no STF tramita sob a relatoria do ministro André Mendonça e analisa a conduta do senador Flávio Bolsonaro quanto à suspeita de crimes na solicitação dos verbas. A outra frente, sob responsabilidade do ministro Flávio Dino, apura indícios de desvio de emendas parlamentares destinadas a um instituto gerido por Karina e a potencial utilização desses recursos públicos na realização do filme.



