Cyrus Nowrasteh, diretor do longa‑metragem “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex‑presidente Jair Bolsonaro, enviou, em julho de 2026, uma mensagem cobrando pagamentos ainda não quitados por seu trabalho. A cobrança ocorreu dez meses depois do último aporte financeiro realizado por Daniel Vorcaro, banqueiro e controlador do Banco Master.
Entre fevereiro e setembro de 2025, Vorcaro transferiu ao projeto US$ 12,3 milhões – cerca de R$ 62 milhões – em cinco parcelas, conforme dados divulgados pelo ICL notícias. Os e‑mails reproduzidos em relatório da Polícia Federal mostram que, no dia 10 de julho, Nowrasteh contatou o deputado Mário Frias, produtor‑executivo da obra, afirmando que ainda havia valores devidos por seu serviço, sem especificar o montante nem o total já recebido.
Em resposta, no dia seguinte, Frias reconheceu a contribuição do diretor e garantiu o pagamento de todas as obrigações assumidas, tanto com Nowrasteh quanto com os demais envolvidos no projeto. A correspondência não traz comprovação de que a pendência tenha sido regularizada posteriormente.
Além da questão financeira, Nowrasteh questionou alterações na estratégia de distribuição, já que a equipe pretendia lançar o filme antes das eleições, nos Estados Unidos e em outros mercados. A mudança de plano gerou dúvidas sobre os prazos e a viabilidade da estreia.
A Polícia Federal investiga se os recursos enviados por Vorcaro foram efetivamente empregados na produção de “Dark Horse” ou se serviram de fachada para ocultação, simulação e desvio de dinheiro. Entre as hipóteses analisadas, está a possibilidade de parte dos fundos ter custeado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, embora ainda não haja comprovação.
Em áudio encaminhado a Vorcaro em 8 de setembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) alertou sobre o risco de atrasos nos repasses futuros, comentando: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim, né?”.
A quinta e última parcela, no valor de US$ 1,6 milhão, foi confirmada pela PF em 16 de setembro de 2025. Os recursos foram direcionados ao fundo americano Havengate Development Fund LP por meio da Entre Investimentos, empresa também sob investigação no caso do Banco Master. O fundo é administrado pelo advogado Paulo Calixto, que representa Eduardo Bolsonaro nos EUA, e por Altieris Santana, citado nas mensagens do celular de Vorcaro como pessoa próxima do ex‑deputado.
A GoUp Entertainment, responsável pela contabilidade da produção, informou em laudo privado ter liquidado R$ 54,2 milhões em despesas no exterior. Contratos de câmbio, por sua vez, apontam a entrada no Brasil de US$ 2,82 milhões – equivalentes a R$ 14,69 milhões. A discrepância entre os valores enviados ao exterior e os recursos que efetivamente retornaram ao país motivou a PF a solicitar perícia contábil‑financeira, visando confrontar despesas declaradas, contratos de câmbio e o fluxo de dinheiro destinado ao Havengate. O acervo entregue pela GoUp contém mais de 20 mil páginas de documentos.
O consultor Dennis Rice, que atuou para a GoUp nos Estados Unidos, também emitiu faturas à produção. Ele se desvinculou do projeto em 25 de junho de 2026, alegando ambiente de trabalho insustentável, e voltou a solicitar pagamento em 28 de julho; os documentos não revelam o valor cobrado nem comprovam quitação posterior.
E‑mails ainda revelam uma negociação frustrada para exibir “Dark Horse” em Washington e no Mar‑a‑Lago, com a possibilidade de Donald Trump ser anfitrião. Karina da Gama, da GoUp, comunicou o cancelamento do evento após orientação atribuída a Eduardo Bolsonaro e a Mário Frias, e as mensagens confirmam que a exibição não ocorreu.

