Saiba tudo sobre a Cabernet Sauvignon

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Ela é conhecida como a rainha das uvas tintas, e não é à toa. Variedade tinta mais cultivada do planeta, a Cabernet Sauvignon é a matéria-prima de rótulos emblemáticos e, merecidamente, é mundialmente celebrada no mês de agosto.

A cepa é de origem francesa, mas, graças à persistência de produtores como Leoncio Arizu, fundador da vinícola argentina Luigi Bosca, adaptou-se aos diferentes continentes, incorporando novas camadas e nuances.

A seguir, Alberto Arizu (filho), da quarta geração da família de vitivinicultores de Mendoza, dá uma aula de história sobre a Cabernet Sauvignon e conta como essa uva conquistou as taças de todo o mundo e adquiriu uma personalidade própria de acordo com seu terroir. 

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Rótulos de Cabernet Sauvignon da vinícola Luigi Bosca.
Foto: Divulgação

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“Em agosto, o mundo do vinho celebra a Cabernet Sauvignon, a variedade tinta mais cultivada e reverenciada do planeta. Não há um consenso sobre a data exata: alguns comemoram no dia 29, outros no dia 30. E há ainda quem estabeleça a última quinta-feira de agosto como o dia mundial dessa uva. Mas, se há algo que a Cabernet ensinou ao longo da sua história, é que não precisa de um único marco para ser imortal. Seu legado foi construído ao longo de séculos de transformações, viagens, adaptações e fé.

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Nascida no sudoeste da França, na região de Bordeaux, por volta do século 17, a Cabernet Sauvignon é fruto do cruzamento natural entre a Cabernet Franc e a Sauvignon Blanc. Dessa união genética surgiu uma uva resistente, de casca grossa, com estrutura tânica firme e grande capacidade de envelhecimento. Não foi fácil de cultivar, mas certamente fascinante. Foi ali, nos prestigiados crus bordaleses, que começou o seu reinado, dando origem a alguns dos vinhos mais admirados da história. Em 1868, a compra do Château Lafite pelo barão James de Rothschild selou a aliança entre aristocracia, vinho e patrimônio. Esse gesto da nobreza financeira europeia foi mais do que um investimento: marcou o início de uma era em que o vinho Cabernet Sauvignon se tornou símbolo de status, refinamento e poder.

No século 20, a variedade cruzou fronteiras e oceanos. Na Califórnia, Georges de Latour fundou a Beaulieu Vineyard em 1900 e, junto ao enólogo russo André Tchelistcheff, começou a moldar uma expressão americana do Cabernet – mais acessível e amigável. Décadas depois, Robert Mondavi daria ao Cabernet norte-americano o seu impulso definitivo, tornando-o o estandarte do Napa Valley. Sua parceria com o barão Philippe de Rothschild, que deu origem ao Opus One, foi uma das primeiras pontes simbólicas entre o Velho e o Novo Mundo – e um lembrete de que o talento enológico podia ser universal.

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Mas nada abalou tanto o status quo do vinho quanto o célebre Julgamento de Paris, em 24 de maio de 1976. Numa degustação às cegas organizada pelo britânico Steven Spurrier, um painel de renomados juízes franceses escolheu, sem saber, um Cabernet Sauvignon da Califórnia como o melhor tinto, à frente de grandes ícones de Bordeaux. O resultado foi um escândalo, mas também uma revelação: a qualidade não tinha passaporte, e o mundo do vinho já não era unidirecional. O Cabernet, até então sinônimo da aristocracia francesa, passou a ser o estandarte de uma nova geração de produtores que buscavam excelência a partir de outros terroirs.

Esse mesmo espírito também cruzou o hemisfério sul. Na Argentina – terra de imigrantes, deserto e cordilheira – a Cabernet chegou pelas mãos de pioneiros que sonhavam em domesticar uma terra selvagem e transformá-la em cultura. Um deles foi meu bisavô, Leoncio Arizu, que no início do século 20 plantou as primeiras parcelas de Cabernet Sauvignon em Mendoza, convencido de que essa uva exigente, de ciclo longo e caráter firme, poderia sobreviver e prosperar em terras de altitude. Não foi uma decisão guiada pela demanda, mas pela intuição, pela observação paciente, pelo desejo de aprender com a natureza.

cabernet sauvignon

O engenheiro Alberto Arizu.
Foto: Divulgação

Trabalhar com Cabernet em Mendoza foi, durante muitos anos, um desafio técnico e também um exercício de humildade. Não havia fórmulas prontas. Era preciso esperar. Observar cada parcela como única, compreender os solos aluviais, os contrastes térmicos, a intensidade do sol, a influência dos Andes. Foi uma busca longa, às vezes solitária, mas profundamente reveladora. Aprendemos que o Cabernet podia se expressar de outra forma. Que, nas nossas condições extremas, desenvolvia uma expressão distinta: aromas de ervas secas, alecrim, pimentão vermelho; estrutura firme, mas sem rigidez; taninos polidos pela altitude; elegância discreta e uma notável capacidade de guarda.

Num país dominado pelo vinho Malbec, o Cabernet Sauvignon sempre foi uma minoria silenciosa – um desafio, quase uma obstinação. Mas, nas últimas décadas, começou a ocupar o lugar que merece. Hoje, alguns dos grandes vinhos de guarda da Argentina têm a Cabernet como protagonista. E, na Luigi Bosca, essa trajetória encontrou seu ponto culminante na criação do León, nosso Cabernet Sauvignon ícone. Batizado em homenagem a Leoncio, representa a síntese de uma história familiar, de uma visão e de uma fidelidade silenciosa a uma variedade que nos ensinou a esperar.

O León não busca se parecer com nada nem com ninguém. Não foi concebido para imitar, mas para transcender. É um vinho que honra a austeridade dos grandes clássicos, mas o faz com a energia selvagem dos Andes. Um vinho de arquitetura precisa, nobre, que encara de frente os grandes Cabernets do mundo e encontra a sua voz a partir de Mendoza. É, também, uma declaração de princípios: a excelência não se impõe, constrói-se. A identidade não se copia, cultiva-se. E o inesperado também pode ser inesquecível.

cabernet sauvignon

Alberto Arizu (filho) e o enólogo chef da Luigi Bosca, Pablo Cúneo.
Foto: Divulgação

Hoje, neste Dia Mundial da Cabernet Sauvignon, não celebramos apenas uma uva, mas tudo o que ela representa: curiosidade, paciência, ousadia e fidelidade a uma visão. De Bordeaux a Mendoza, do Julgamento de Paris aos terraços pedregosos do sopé andino, o Cabernet Sauvignon tem sido um espelho para aqueles que ousam pensar o vinho com respeito e sem atalhos. Por isso, e por tudo o que ainda está por ser escrito, celebremos este dia com orgulho. Porque a Argentina também tem uma história para contar, na nobre língua do Cabernet Sauvignon.”

Alberto Arizu (h)

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